Corrupção, cocaína e os dez mandamentos – Segunda Parte
Você pode acreditar na criação divina do mundo e na especialidade do homem criado a imagem e semelhança de Deus ou no Big Bang e na teoria da evolução. Se você é uma pesssoa de fé já resolveu a maior parte dos problemas que afligem a humanidade e está em paz consigo, se não, é uma questão de fé de menos e terá que recorrer a ciência. A religião depende só e exclusivamente da fé, da capacidade que temos, ou não, de acreditar em alguma coisa. Já a ciência, pobre ciência, exige comprovação. Mais que isso, exige comprovação, metodologia e repetição.

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Desde que o homem pegou a primeira pedra e derrubou a primeira caça que estamos, todos juntos, criando uma metodologia cientifica em uma busca sem fim por uma estrutura de pesquisa que permita o registro de um evento, descoberta ou característica em um formato que permita entendimento, discussão e repetição. Há uma metodologia formal que incluí a dúvida, a idéia, a busca da solução e os relatórios de resultados.
Sendo pouco formais, podemos dizer que toda ciência começa em uma pergunta. A necessidade de resposta provoca uma pesquisa. A pesquisa leva a uma hipótese que produz um experimento capaz de comprovar ou negar a hipótese. O processo termina na publicação de um relatório detalhando tudo o que aconteceu. Este relatório pode ou não responder a pergunta. Na maior parte das vezes não responde nada. Eventualmente responde a pergunta original e cria perguntas novas. Assim pensam e trabalham os cientistas.
Bem registrado e documentado segundo as normas vigentes ou simplesmente descrito em um guardanapo o processo levará a um resultado cientificamente aceito se, sob as mesmas condições, puder ser repetido com o mesmo resultado. Em última análise, é a repetição que valida o experimento ou a descoberta. É a repetição que permite a análise do resultado por críticos e por pares. É a repetição que permite que a ciência evolua. Evoluindo, ou não, a ciência tem suas limitações.
Qualquer coisa que inclua a raça humana é complicada. As experiências são limitadas por nossa aversão a cortar e retalhar nossos semelhantes. Esse é o ponto onde a ciência tem que parar. Quando não para temos os holocaustos e carniceiros. Além dessa repulsa natural e todos os problemas éticos que ela implica acreditamos que somos complexos seres racionais que influenciam o ambiente com sua racionalidade. Essa complexidade dificulta a pesquisa científica dificultando a identificação dos fatores motivadores únicos de um comportamento ou responsáveis por uma doença em especial. É nesse ponto que entra a estatística e que a maioria de nós sai para ir ao cinema.

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A estatística é a parte da matemática que rege a coleta e análise de dados e fornece os processos necessários para a análise destes dados e para a determinação das chances de determinado processo, efeito, defeito ou evento acontecer. O uso da estatística determina o método estatístico de pesquisa científica (muito criativo esse nome!).
Para que algo tenha valor científico usando esse método estatístico, temos que saber que em estatística nada é exato e tudo tem apenas um grau de possibilidade de ser real. Logo, temos que resguardar todos os pressupostos matemáticos dos métodos estatísticos. Determinar um universo que seja estatisticamente relevante, produzir uma amostra que seja estatisticamente correta e criar uma pergunta que seja estatisticamente possível.
Aqui um belga entra na história. Lambert Adolphe Jacques Quételet que não tinha pretensões divinas e ainda assim criou um homem. O Homem Médio.
Criatura patética sem corpo e sem nada, que define desde o tamanho da calça que você usa até o tamanho dos bancos dos aviões. Tudo que temos e fazemos, que não é feito sob medida para você é feito sob medida para ele. O Homem Médio não existe, não cheira, não fala nem escuta. Ainda assim, em sua mediocridade determina se o seu sapato vai apertar em cima do dedão ou no tornozelo.
O bom Adolphe andava as voltas com o estudo dos problemas sociais exacerbados pelas grandes cidades lá nos idos de 1830 na Bélgica. Curiosamente, o que preocupava o pobre Adolphe era a criminalidade. Imagine o cenário: Bélgica, 1830, criminalidade exacerbada. Dito assim parece que eu deveria ter começado este texto com: Era uma vez…
Professor de matemática e estatística o bom Adolphe foi o primeiro a usar essas ferramentas para estudar fenômenos sociais e, publicou um ensaio em 1835 (Essai de physique sociale. Comprar aqui, download aqui) onde teve a brilhante idéia de usar a estatística para determinar os comportamentos médios dos seres humanos. Pronto, estávamos todos condenados a viver dependendo das vontades do Homem Médio em uma distribuição gausiana e até agora você nem sabia que era culpa do bom Adolphe.
O Homem Médio é uma figura retórica que representa o comportamento mais provável de um determinado conjunto humano sob estudo. Representa a norma, representa os dados que estão na região confortável da curva de amostragem. O que não está nessa região não é normal é anomalia. Esse conceito deu muito pano para manga e muitos artigos filosóficos foram escritos sobre o tal do Homem Médio. Até hoje o dito cujo anda criando problemas lá nas bandas do direito.
Aqui nos importa entender o quê o Homem Médio representa e seu valor para a economia, sociologia, medicina e ciência em geral. E aqui faço minhas as palavras de Peter Pál PELBART no livro “A vertigem por um fio” de 2000.
“a Mão invisível do Mercado não só dirige o Consenso democrático mas faz de todos nós esse gado cibernético que pasta mansamente entre os serviços e mercadorias ofertadas (….) O resultado é uma extraordinária operação de anestesia social, fundada na unidade atômica indispensável, o homem médio estatístico, o consumidor ideal, de bens e serviços, de entretenimento, de política, de informação, o cyber-zumbi. O homem médio é resultado dessa fabulosa engenharia social: eis nosso encontro com a modernidade, a capitulação elegante aos ditames da Mão invisível, o contra-ataque planetário dos imbecis”
Além disso, pobre Homem Médio. Todos os especialistas de fundo de quintal e de mesas de bar citam seu santo nome em vão culpando-o de tudo que ocorre, sem eira nem beira e sem nenhum sentido. Criatura insípida e impotente teve seus momentos de glória ao mostrar que poderíamos usar a estatística para determinar como funcionamos e até hoje é vilipendiado sem dó nem piedade pela imprensa marrom que assola nossos dias focando no agora, generalizando o específico e desprezando o detalhe, e alimentando a fome sem fim dos governos por padrões e impostos.

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A ciência o esqueceu há muito. Método criado e comprovado a figura perde o sentido e vira folclore. Em ciência diz-se que algo tem significado estatístico e portanto valor quando existe uma probabilidade menor que 5% de esse algo ter ocorrido por acaso. É tão provável que deve existir uma razão além do acaso.
Sempre que encontramos essa probabilidade de casualidade menor ou igual a 5% aceitamos como sendo um fato estatisticamente correto e, se o experimento em questão resultar nesse range e puder ser repetido aceitamos o resultado como cientificamente correto. O que não quer dizer que não possa ser discutido e contestado.
Foi assim, com método científico estatístico, que descobrimos como a cocaína afeta o cérebro humano e logo em seguida, com o avanço dos equipamentos de teste, fomos capazes de ver o processo dentro do cérebro e descobrir que os efeitos da cocaína estão longe de ser exclusivos desta substância. Na verdade, muito do que fazemos é motivado pelos mesmos processos químicos do cérebro. Esse é o assunto do artigo da semana que vem. Enquanto espera tome um café, assine meu RSS, assine esse blog por email, acompanhe esse blog no twitter ou volte sempre. Gostando ou não, comente.




Olá Frank,
Parabéns pelo texto. Iria só dar uma olhadinha e não resisti, acabei lendo o texto todo. Gostei da sua análise sobre a ciência, o método e a figura do homem médio! Aguardo com muita expectativa terceira parte.
Forte abraço,
opa… valeu, obrigado..