Corrupção, cocaína e os dez mandamentos – Terceira Parte

A cocaína chegou a Europa no fim do século XIX e se espalhou pelo continente de forma avassaladora, mas não como você imagina. No começo ela não era vendida em esquinas  escuras à noite e seus consumidores e vendedores não eram perseguidos pela polícia ou onitorados pela sociedade.

A cocaína, um alcalóide, deve ter sido extraída da folha de coca pela primeira vez no século XiX, na Europa mas não se tem certeza absoluta de quem e em que ano. O que se sabe é que no final deste século, uma infusão alcoólica de folhas de coca era vendida com muito sucesso na Europa com o nome de Vinho Mariani. Tal foi o sucesso deste “vinho” que a coca foi incluída na fórmula de um xarope estimulante, nos EUA, há muito a cocaína foi retirada de sua fórmula e substituída pela cafeína, mas o nome derivado da droga continua até nossos dias: Coca-Cola.

Evo Morales
Creative Commons License photo credit: DPMS

O alcalóide é extraído das folhas de um arbusto sul-americano muito comum na Bolívia a coca. Recentemente o presidente Evo Morales da Bolívia mascou folhas de coca em uma conferência das Nações Unidas como forma de protesto já que essa folha está incluída na lista negra de entorpecentes da ONU. Errônea e preconceituosamente, diga-se de passagem. A folha de coca é um estimulante de uso medicinal e que não possuí nenhum efeito entorpecente comprovado. A folha de coca é um importante ativo econômico para países como a Bolívia, Perú e Colômbia. Infelizmente, parte da produção é desviada para a fabricação da
cocaína.

O banimento da cocaína começou nos EUA em uma época em que preconceitos e interesses políticos substituíam a pesquisa científica com mais facilidade. Em especial um trabalho destacando que maioria dos ataques sofridos pelas mulheres brancas eram resultado direto dos cérebros negros enlouquecidos pela cocaína. Atitudes como essa e preconceito levaram a taxação da substância como narcótico e sua inclusão, já nos anos 70 na lista de substâncias controladas nos EUA. A cocaína não é um narcótico, nem por isso deixa de ser extremamente nociva ao cérebro humano. O que nos interessa saber não são as implicações históricas da proibição, menos ainda as conseqüências econômicas ou sócias. O que nos interessa é saber como essa substância cria a dependência, o vício e como ela age no cérebro.

O termo centro de prazer surgiu nos anos 50 do trabalho de James Olds e Peter Milner com ratos. Eles descobriram que estimulando uma determinada área do cérebro fornecia tanto prazer aos pobres roedores que eles não hesitavam em atravessar uma sala com solo eletrificado só para apertar o botão que estimulava o centro de prazer. Obviamente, muito poucos estudos são conhecidos sobre o estímulo direto do cérebro humano. Observe que eu disse “conhecidos”.

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Creative Commons License photo credit: Liz Henry

Com o avanço das tecnologias de Imagens por ressonância magnética, ou MRI em inglês, não é mais preciso abrir a cabeça de ninguém para saber o que se passa por lá. De fato, já é possível ler pensamentos. Essa mesma tecnologia permite determinar que área do cérebro é estimulada em situações diferentes. Já é possível, por exemplo, determinar quem está mentindo ou não. Criando a experiência correta, podemos dizer que área do cérebro será estimulada, quão intenso será esse estímulo e por quanto tempo. Observe que estou falando de estudos com mais de 20 anos e com tecnologia de ressonância magnética para lá de  estabilizada, conhecida e usada. Tudo isso vai ficar muito mais preciso nos próximos anos quando uma tecnologia da IBM, que aumentou em 100x a capacidade de resolução dos aparelhos de ressonância magnética chegar ao mercado. Quando isso acontecer talvez não seja preciso nem estar na mesma sala que o equipamento para ter sua mente escarafunchada.

A dopamina, um neurotransmissor totalmente natural é, sem dúvida, a substância mais interessante em nosso organismo e quando entendermos completamente seu funcionamento dominaremos nossos próprios instintos. Essa moleculazinha vagabunda, C8H11NO2, parece controlar todo o nosso sistema de recompensas e prazer. E, provavelmente é responsável indireta por todos os nossos vícios. Usando uma técnica de varredura um pouco diferente o PET, a  tomografia por emissão de prótons, foi possível ver, literalmente, a ação de neurotransmissores como a dopamina, a seratonina e noradrenalina nos centros de prazer e motivação. Esses neurotransmissores levam a informação aos neurônios responsáveis e, depois de algum tempo voltam as micro vesículas onde ficam armazenadas e a sensação de prazer, por exemplo, cessa.

O que a cocaína faz, de forma brutal é interromper essa volta. Mantendo os neurotransmissores nos neurônios por muito mais tempo e permitindo a chegada de
mais neurotransmissores criando uma sensação enorme e prolongada de prazer, estímulo e bem estar. O primeiro problema surge quando o cérebro fica acostumado com o efeito e não quer mais funcionar normalmente é isso que chamamos de vício.

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Creative Commons License photo credit: andronicusmax

Sabemos que esse efeito é destrutivo. Os neurônios responsáveis pelo prazer são, se expostos continuamente, destruídos. E que o consumo, mesmo em pequenas quantidades pode alterar a química do cérebro de forma irreversível, provocando extrema magreza, tremores e deficiências diversas. Decidir por experimentar a primeira carreira pode ser a última coisa consciente que faça na vida e, na maior partes das vezes é.

O que as pesquisas têm mostrado mais recentemente é que substâncias como a cafeína, o açúcar,  o chocolate e sentimentos como o amor atuam no cérebro de forma semelhante a cocaína, ainda que em menor intensidade e sem maiores danos. O mais interessante disso tudo é que, do ponto de vista do cérebro, ganhar uma bolada de surpresa, tem o mesmo efeito que cheirar uma carreira, mas esse é o assunto da próxima semana. Enquanto espera tome um café, assine meu RSS, assine esse blog por email, acompanhe esse blog no twitter ou volte sempre. Gostando ou não, comente. :) m

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2 Comentários para “Corrupção, cocaína e os dez mandamentos – Terceira Parte”

  1. Muito interessante e esclarecedor, Frank. Adorei a leitura!

  2. Obrigado, semana que vem chegaremos ao climax dessa série. :)