Eu estou aprendendo Mandarim e você?

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A China vai dominar o mundo! Todos os dias vemos afirmações como essa de “especialistas” em comércio mundial e “especialistas” em China. Falam como se fosse uma novidade ou alguma coisa imprevisível. Todas as vezes que ouço isso me lembro de uma cena de um filme antigo, gravada em minha memória com todas as cores e sons.

Pandas!! (GIANT PANDA/WOLONG/SICHUAN/CHINA)
photo credit: Chi King

Nesta cena um avô de filme americano está pescando truta (flyfishing) e o neto, também tipicamente americano, pergunta: – Vô não dói? Fura a boca do peixe. Não dói? E o avô calmamente responde: – Claro que não, o peixe tem sangue frio, não dói nadinha. E sorrindo completa: -Só lembre que não foi um peixe que me disse isso! Um sorriso sínico de quem tem anos de estrada e não se surpreende mais. Com a china, se dá o mesmo.

A China vai dominar o mundo! Esta frase jogada no ar me incomoda, aborrece, como se fosse uma pedra no sapato. Está ali. Pequena, discreta, às vezes me esqueço dela. Mas, está lá. Um passo mal colocado e dói. Incomoda. Essa semana resolvi tirar a pedra do sapato ou pelo menos, colocá-la em um lugar mais confortável.

Conversei com os poucos amigos que tenho por lá e fiz uma pesquisa na internet em sites em inglês de lá e de cá e recolhi alguns dados que me convenceram que no caso da China, se perguntar se dói o peixe dirá que não. Não dói nadinha. E sorrirá.

O sistema educacional

 

Antes de 1949, 80% dos Chineses era analfabeto,

Na era imperial, antes do advento da República Popular da China, 80% ou mais dos chineses era completamente analfabeto. Então contávamos a população da China na casa do 500 Milhões. Um dos programas de Mao, implantados com a paciência, cortesia e respeito aos direitos humanos que lhe era característica, simplesmente levou esses percentuais ao nível de irrelevância.

Segundo a UNICEF  o percentual de analfabetos entre o jovens chineses é menor que 1% (15–24 anos). Há aqui um pequeno pequeno problema, quantizar a quantidade de jovens alfabetizados é um jogo de adivinhação e palpite. Os números que nos dariam uma noção de tamanho com relação à china retirados dos censos oficiais são, para dizer o mínimo, inconsistentes.

Devido ao tamanho territorial, falta de infra-estruturar, tradição rural e programas de controle de natalidade ninguém tem certeza de quantas pessoas vivem na China. As pessoas no grande setor rural, simplesmente preferem esconder suas famílias em um turbilhão de estratagemas  a se submeter aos controles do governo. Ainda assim, se tomarmos como base os números da UNICEF, esse dado: “menos de 1%”, representa alguma coisa como 600 milhões de pessoas jovens, totalmente alfabetizadas mais que toda a população da China antes da revolução.

Trata-se de um peixe enorme. Esse índice foi conseguido com intenso investimento governamental, o estado absoluto, investindo pesado em educação.

A Educação privada só foi permitida na China, nos anos 80. Ao contrário dos EUA e de alguns países da Europa, cuja educação é fortemente calcada na iniciativa privada isso só começou na China junto com a década de 80. Mais ou menos quando o Muro de Berlim caiu, levando o comunismo com ele e forçando a China a olhar para o ocidente como única opção para ver o futuro.

Claramente o fator “público/privado” não faz grande diferença nos índices de analfabetismo. Os chineses conseguiram isso garantindo que Todo cidadão chinês deva ir à escola por pelo menos nove anos, Onde eu escrevi garantindo entendam que eles ainda usam os mesmo métodos de cortesia, paciência e cuidado que são lendários no trato do cidadão comum que persistem desde os tempos imperiais, via comunismo de Mao e até hoje. Os cidadãos são forçados, para o bem ou para o mau, em um sistema de educação onde a Pré-escola dura três anos.

Iniciando aos três anos de idade e terminando aos seis os estudantes chineses seguem um programa curricular na pré escola que dá ênfase em jogos, dança, musicalidade e nos valores de verdade, gentileza, pontualidade e beleza. Acreditam que essa fase é fundamental para a formação da personalidade e dos valores que os guiarão pela vida. Formar caráter antes de formar conhecimento.

Vou ressaltar verdade e pontualidade. Olhe para nosso próprio sistema educacional e veja se descobre um programa educacional para crianças nessa idade que incluam explicitamente estes valores. Eu procurei muito antes de achar uma escola para meu filho onde a primeira frase da diretora foi: Aqui acreditamos em formar pessoas honestas e responsáveis. Oh! Deus, confesso, adorei ler isso sobre a China, andava só e descobri que não estou tão só assim.

Escolas técnicas são chamadas de vocacionais

O ensino fundamental é dividido em duas categorias: O que chamávamos de primário e hoje é o ciclo básico é composto do estudo de Mandarim, o idioma comum, matemática e idiomas estrangeiros. Ao final deste ciclo as crianças realizam um teste vocacional que determina o caminho que deverão seguir no próximo ciclo.

O próximo ciclo pode ser técnico e específico ou generalista. Em todos os dois casos os estudantes estudarão ciências físicas e humanas o que difere é o foco. Nas escolas vocacionaisos estudantes são treinados para trabalho técnico de nível médio, construtores ou fazendeiros. As outras escolas preparam os alunos para a faculdade com uma visão mais generalista do conhecimento.

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photo credit: Wootang01

As escolas vocacionais estão, em sua maioria, localizadas em zonas rural. Lá, como aqui, a ideia é permitir acesso a melhores condições de vidas a imensa população de desfavorecidos do sistema econômico.Para isso uma educação simples e objetiva para criar uma grande massa trabalhadora.

Aqui graças ao capitalismo selvagem que não deixa dividir o bolo mesmo depois de crescido. Lá graças à falência das ideias de comunismo e divisão igualitária. Do ponto de vista de quem passa fome, o sistema econômico não faz a menor diferença. Emprego faz.

Estando na zona rural ou não, todos os estudantes devem passar pelo teste vocacional depois de passar, em média, 9 horas por dia na escola (07h30min até 16h30min), O rendimento é controlado pelo estado. Aqueles que falham em atingir os níveis mínimos terão o inigualável prazer de ver o suporte governamental para sua educação simplesmente cessar.  Nesse nível o governo subsidia a maior parte do custo da educação e adota a polícia de cobrar uma pequena taxa a título de tutela.

Mesmo com todo este esforço, a educação rural ainda é um problema, principalmente na pré-escola. Na China a área rural é um planeta a parte.

As comunidades são milenares, pequenas, fechadas e tradicionalistas, forçando o governo a adotar medidas alternativas para educação infantil nestes cantões. Além da tradição o governo tem que enfrentar a oposição aos métodos de controle populacional e a endemia do suicídio de esposas que deixa dezenas de milhares de crianças em situação extremamente complicada e a aversão dos anciões por novos idiomas para educar as crianças. Mandarim, o idioma comum a toda China, ainda é coisa nova na maior parte do país.

Uma das opções que o governo está adotando para combater a distância e a tradição é usar a televisão para levar a educação aos pontos mais remotos do país. O canal de televisão estatal (China Education Television Station – CETV) leva o programa Sala de Aula no Ar a 40% de todas as escolas do país ou, aproximadamente 100 milhões de estudantes.

No ciclo básico os alunos têm direito a 13 semanas de férias e feriados durante o ano, alunos do ciclo correspondente ao nosso antigo ginásio têm direito a 12 semanas por ano enquanto os alunos das escolas de nível médio, nosso antigo segundo grau gozam 11 semanas por ano de férias e feriados, nada muito distante do que temos aqui em terras tupiniquins. A diferença está nos números. Enquanto aqui temos 200 dias letivos por ano com 4 horas por dia, em média. Na China eles chegam a ter 288 dias de aulas com 9 horas por dia, um estudante médio fica na escola aproximadamente 1800hs por ano contra 800hs aqui. Agrave isso considerando que são 200 dias letivos, festas, homenagens e reuniões diversas são considerados dias letivos mas, não são dias de aulas.

Outro aspecto interessante é a Educação especial até 1985, tanto os alunos super dotados quanto os que requerem atenção especial para suprir alguma deficiência eram ignorados. Desde então já foram abertas 1540 escolas de educação especial em um extremo e no outro.

Meio milhão de engenheiros todos os anos

Preparing for Battle
photo credit: parhessiastes

Para entrar na faculdade todos os alunos fazem um prova sobre o controle do Ministério da Educação. Prova esta, tão disputada, que leva alguns estudantes a estudar até 16hs por dia, ainda assim, a cada ano, aproximadamente, MEIO MILHÃO DE ENGENHEIROS terminam a faculdade e vão para o mercado de trabalho. Não se engane, o foco do governo não está apenas na formação dos jovens. Desde 2002 o ministério da educação o Ministério de Educação está aumentando as taxas de Educação superior para adultos. Hoje existem 607 instituições para adultos atendendo 2.2 Milhões de pessoas em um único programa.

Os números envolvidos nestes programas são assustadores e mostram a intenção clara de atingir patamares relativos qualidade e quantidade equivalentes, ou superiores, aos dos países mais desenvolvidos do mundo. Aliás, há quem diga que eles pretendem atingir esses níveis no ano de 2010.

O governo Chinês não está preparando a sua população para dominar o mundo. Isto não está nos planos deles, nunca foi falado, aventado ou mesmo pensado. Eles não tem pressa. Essa coisa de comunismo é muito nova. Cinquenta anos. Não é nada na história do país. O que eles estão fazendo é melhorando a qualidade de vida do cidadão comum. Usando por vezes métodos nada ortodoxos. O sujeito vai melhorar de vida na marra ou perde o trem. Coisas que não imaginamos no mundo ocidental. Se continuarem tendo o mesmo êxito que tiveram até agora dominar o mundo será apenas um efeito colateral.

Eu estou aprendendo Mandarim. E você?

 

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