Corrupção, cocaína e os dez mandamentos – Primeira Parte

Dia sim, dia não há sempre um político, funcionário público ou empresário sob suspeita colocado sob as luzes da imprensa como corrupto. Desde que me entendo por gente, nunca abri um jornal que não tivesse um corrupto, ou caso de corrupção, estampado na primeira página. Exceção seja feita aos dias de posse presidencial, como vimos recentemente, onde é impossível ver apenas um corrupto.

Malta - Euros (Coins)
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Há algumas semanas fui surpreendido por uma notícia no ParanáBrasil, dando conta que o Brasil está em oitavo em um ranking mundial de transparência governamental. Uau! Oitavo. Nada mal! Transparência governamental é uma arma eficiente para eliminação da corrupção. Se colocarmos todo o processo financeiro e econômico do governo na internet todos poderão acompanhar o que se passa com o dinheiro dos impostos e, para roubar na frente de todos tem que ser mágico. Ainda assim, a sensação que temos é que nossos políticos são capazes de dar aulas a qualquer David Copperfield.

Mais recentemente vi uma notícia dando conta que o ex-presidente da Associação Goiana de Combate a Pirataria de CDs e DVDs foi preso em flagrante por… Imaginem… vender CDs e DVDs piratas. É claro que o ex-presidente tem o benefício da dúvida e que ele não pode ser considerado culpado, mesmo que preso em flagrante delito, até que seja julgado e todas as provas consideradas. Ainda assim, ele foi preso em flagrante por que suas lojas estavam abarrotadas de CDs e DVDs piratas. Só para ressaltar: ex-presidente da Associação Goiana de Combate a Pirataria de CDs e DVDS.

O que ainda me surpreende, não é a roubalheira é quem rouba e como rouba. Qual pode ser a força motriz por trás de um político que arrisca toda a sua carreira para ganhar menos de 10% do que ele ganha legalmente? Ou, que leva um milionário arriscar 10 anos de cadeia em troca de mais um milhão? Ou que leva o ex-presidente de uma associação de combate a pirataria a vender produtos piratas? Ou que leva o cidadão comum a subornar o guarda do sinal? Somos tão corruptos assim? E os outros países do mundo?

Article II, Section 4, United States Constitution v. SCOTUS Police, Outside the Third Guantanamo Hearing (Washington, DC)
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Temos a sensação que nosso país é mais corrupto que o país dos outros. Temos essa sensação em relação aos países europeus e aos dois gigantes do norte. Esse sentimento está tão entranhado na alma do brasileiro que já é quase uma característica nacional. Ser brasileiro é acreditar que somos mais corruptos que os outros.

Basta parar em qualquer feira livre, pegar qualquer taxi ou ônibus e prestar atenção nas conversas, para ver como nosso povo acredita na corrupção inerente do brasileiro e na sua inevitabilidade. Ouso dizer que existem mais brasileiros que acreditam que a corrupção é intrínseca do povo brasileiro do que existem brasileiros que acreditem em Deus. Todos os ateus que conheço acreditam na corrupção como uma força inerente ao nosso povo.

Temos motivos para acreditar nessa inerência e inevitabilidade. No relatório de 2008 da ONG Transparência Internacional, nossa nota é, para dizer o mínimo, vergonhosa.

Estamos atrás de países que são muito menos estáveis política, social e economicamente que o nosso; atrás de países mais pobres e de países mais ricos; atrás de países capitalistas e comunistas; atrás de países católicos, protestantes, mulçumanos, budistas e sem religião oficial; atrás de países velhos e de países novos; atrás de países europeus, africanos e asiáticos. Estamos atrás de países colonizados e colonizadores; atrás de países de colonização portuguesa, inglesa e espanhola; atrás de países em guerra e de países em paz, países compradores e países exportadores. Em resumo, estamos atrás. Não somos os últimos, nem estamos perto disso, mas estamos atrás e parece que não há nenhuma característica específica que nos diferencie dos países que estão na nossa frente.

A pesquisa desta ONG não mede a corrupção isso é quase impossível. Seria necessário que os corruptos respondessem um questionário dizendo que esse ano eles roubaram, desviram verbas, venderam favores e favoreceram amigos. Na falta de corruptos burros em número suficiente para realizar uma pesquisa, o relatório mede algo muito pior. Mede a percepção da corrupção. Mostra o quanto a corrupção entre oficiais do governo, é percebida pela sociedade. Algo pior que a corrupção em si.

Lhes conto uma história sobre isso:

Há algum tempo ouvi de um amigo uma história. Contava ele que uma vez estivera passeando em um shopping e virá uma cabine com uma cortina e, intrigado, perguntara a um amigo seu o que era aquilo? Do que se tratava?. O amigo, entre surpreso e apiedado, dissera-lhe que aquele era um dia especial, era dia de eleição, e que se tratava de uma cabine eleitoral. As pessoas iam ali, preenchiam um documento com sua identificação e votavam em seus candidatos preferidos. E, como se isso fora nada, o amigo voltara sua atenção para a loja de sapatos e para o corredor do shopping. Extasiado meu amigo perguntou: Assim? E não tem ninguém tomando conta? E se alguém fraudar a eleição? Contava ele que o amigo ficara preocupado, seu rosto contraíra-se em uma expressão de angustia e, alguns segundos depois com uma expressão de alívio respondera: Sim é verdade, isso pode acontecer… Mas não imagino por que alguém faria isso?

Ou melhor, conto duas:

Consta que, certo dia nosso sujeito resolveu doar sua bicicleta. A magrela estava um pouco velha, meio caída, um tanto enferrujada, mas ainda tinha as rodas, corrente, pedais e banco em bom estado e muitos quilômetros para andar. Amiga de muitas jornadas esta magrela não merecia acabar em um lixão qualquer.

Pegou a magrela e colocou na frente do muro com uma placa de madeira escrita a mão: Doa-se uma bicicleta em bom estado, tratar aqui. Passou um dia, dois, três … Uma semana e a bicicleta lá. Todos os dias nosso sujeito colocava a magrela do lado de fora de manhã e tirava de noite e ninguém se apiedava da pobre.

Derrubado com a sensação que não teria outra solução senão mandar a amiga para o lixo, Contou a história a um amigo seu de longa data, um velho que estava sempre por ali nos fins de semana tomando um chopp.

Entre um gole e outro o amigo disse: Deixe de ser besta homem! Coloque a bicicleta á venda será muito mais rápido.

Estou dando e ninguém quer… Imagine vender, pensou nosso herói ainda na sua depressão sem fim e molhou a garganta para esquecer. Mesmo assim, atendeu ao amigo. Pegou uma placa de papelão e escreveu: Vendo essa bicicleta, tratar aqui. Pendurou na magrela e colocou ambas do lado de fora do muro. Duas horas depois, quando saiu para trabalhar a placa estava no chão e a bicicleta tinha sido roubada.

Qual destas histórias se passou no Brasil? E qual na Suécia?

Se você entendeu essas histórias entendeu também por que a percepção da corrupção é tão ou mais importante que a corrupção em si. Essa percepção regula nossos relacionamentos sociais, pessoais e econômicos. Determina como fazemos negócios, o preço que cobramos e o preço que estamos dispostos a pagar. Determina a forma como esperamos ser tratados e como tratamos os outros.

Fique tranqüilo, você não vai ler outro texto culpando nossa colonização a sem-vergonhice do brasileiro ou o governo por nossa corrupção endêmica. Vamos fazer uma viagem pela mente humana, nos recônditos mais escondidos da nossa psique e ver o que a ciência já descobriu que pode ser usado para explicar a corrupção.

Vou mostrar as pesquisas mais recentes em uma nova ciência chamada economia comportamental que está misturando psicologia, física e tecnologia de ponta para descobrir como pequenas ações que tomamos são tomadas e acredite racionalidade é o fator menos importante nesse processo. Antes teremos que falar de um homem medíocre que nasceu no século XIX para combater o crime, não tem nada que o destaque na multidão, está vivo até hoje  e ainda é responsável por seu sapato apertar ou por você ter que mandar fazer bainha em todas as calças que compra. Mas isso só na semana que vêm.

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