O dia começou moroso. Filho com febre, garganta inflamada, a esposa já cuidando dos seus afazeres e eu, um pouco mais velho que ontem.
Moramos em um bairro distante do centro da cidade, pelos padrões de Curitiba. Um bairro que está crescendo agora, com muitas casas, prédios baixos e muitas ruas íngremes. Moramos em uma destas ruas íngremes. No fundo de nosso apartamento há um bosque. Cerrado, de preservação. Ao redor deste bosque, condomínios e escolas. Duas escolas e no meio o bosque. De preservação. Cerrado.
O dia começou moroso como toda quarta-feira, café da manhã, filho com febre, jornal na televisão e vizinha chorando na porta.
Vizinha chorando na porta? Essa parte não é normal.
Matheus atendeu e veio me avisar que uma vizinha estava chorando na porta e queria falar comigo. Atendi, meio de sobressalto, meio consternado. Em Curitiba, não é comum as pessoas falarem com desconhecidos. Bater na porta então, nem pensar. Devia ser grave. Pensei no pior.
Começou falando que o marido não estava em casa, e que ela ligara e que ele não podia ajudare que sua casa havia sido invadida por uma coruja. Preciso de ajuda, pontuou.
Fomos. Entre curiosos e apreensivos. Gosto de corujas, admiro até.
Não é minha casa. Casa do vizinho, coruja, mulher em prantos. Meus instintos de caçador, macho alfa a toda. Animal perigoso. A tribo em perigo. Lança em punho. Quatrocentas gramas de violência carnívora.
De volta ao século XXI, o pobre animal estava na sala, empoleirado em uma cadeira da sala. A tudo observando. Certamente tentando entender por que toda aquela agitação.
Primeiro foto. Aí do lado. Depois cuidado. Muito cuidado. Um lençol aberto, calma, muita calma.
Cadê a lança? Lembrei… ficou no século I. Mais lençol…
O Lençol é a lança do caçador urbano do século XXI,
Dois minutos depois a coruja voava sã de volta para o bosque.Vai contar essa história para várias gerações de corujinhas.
Já falei? No fundo da minha casa tem um bosque. Cerrado. De preservação.
O dia começou moroso. Filho com febre. Jornal, café da manhã, caça a coruja…
Muito bem contada a estória!
E tb ri. Legal!
Oi Ricardo, obrigado por ler o depijama…. e por comentar…:)